O LEGADO DE ABRIL NA HISTÓRIA DE UM PORTUGAL DEMOCRÁTICO

Vasco Lourenço e Alfredo Barroso - Num jantar que contou com mais de uma centena de pessoas, Vasco Lourenço e Alfredo Barroso partiram as suas memórias e evocaram os valores de Abril e o legado da "Revolução dos Cravos" na história de um Portugal democrático.

JOSÉ LUÍS JUDAS NO JANTAR DO CLUBE A LINHA

O Clube A Linha contou com a presença de José Luís Judas onde foi especificamente abordado o processo de concepção e execução da estratégia e do projecto que conduziu à vitória do Partido Socialista nas eleições autárquicas em Cascais, com o slogan "mudança tranquila".

VÍTOR RAMALHO NO CLUBE A LINHA

Vítor Ramalho, Presidente da Federação de Setúbal do PS, recordou a matriz genética do partido Socialista, debruçando-se especificamente sobre os desafios autárquicos com que o PS se vê confrontado no Distrito de Setúbal, apresentando a estratégia política seguida nas últimas eleições autárquicas, bem como o caminho que se está a trilhar naquele distrito.

OS DESAFIOS DO CRESCIMENTO ECONÓMICO

Vieira da Silva e Pedro Marques - Cascais acolheu José António Vieira da Silva e Pedro Marques para mais um debate promovido pelo Clube A Linha, onde os convidados partilharam com o auditório, a sua visão sobre os desafios que Portugal enfrenta em matéria de crescimento económico.

OS DESAFIOS AUTÁRQUICOS DE 2013: CONTRIBUTOS PARA A ACÇÃO POLÍTICA

José Junqueiro - Perante um auditório lotado, José Junqueiro sublinhou a importância das próximas eleições autárquicas para o Partido Socialista, onde se irão sentir pela primeira vez os efeitos da limitação de mandatos.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Artigo de Opinião: Terrorismo Internacional. Uma nova maquinação?

Os ataques deflagrados na passada quarta-feira à noite, coordenados por terroristas islâmicos, na capital económica e tecnológica da Índia, são já responsáveis, segundo a CNN, por 125 mortes e mais de 300 feridos em vários locais de Bombaim, actual Mumbai.

Talvez não seja totalmente inédito, mas desta vez os principais alvos considerados remuneratórios foram hotéis internacionais, visando, naturalmente, os cidadãos estrangeiros que neles se encontravam. Segundo a nossa Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas, não há, felizmente, portugueses entre as vítimas a lamentar.

E foi nesta mais recente arena terrorista - os Hotéis Meridien e Taj Mahal – que o protagonismo estratégico coube, segundo a agência Press Trust of India, ao autodenominado grupo Mujahedines do Deccan -, desconhecendo-se, por ora, as suas eventuais ligações à Al-Qaeda bem como o possível tipo de contributo que visem dar ao alargamento do almejado Califado pan-islâmico àquela região.

Naturalmente que há um modus operandi que se repete, mas não deixa de se acrescentar algo ao que já conhecíamos do terrorismo de matriz islâmica: é que desta vez foram eleitos como principal target os cidadãos estrangeiros que, em trabalho ou recreação, se encontravam naquele país. Sem prejuízo de, na espiral da violência, muitas outras vítimas “inocentes” (para o terrorismo não há inocentes) terem igualmente sido apanhadas pelo olho do furacão.

De Ban Ki-Moon a Barack Obama as reacções não se fizeram tardar, de condenação total da violência atroz e de urgência na punição dos culpados. Totalmente previsível.

Contudo, com o assentar da poeira, conviria levar a reflexão um pouco mais longe. Arrisco esquiçar-lhes algumas pistas:

- Muitos governos revelam falta de determinação e coragem política para a tomada de posições não ambíguas contra o terrorismo, sejam quais forem os seus perpetradores. Haverá bons terroristas?

- Há um fracasso do mundo democrático na batalha das ideias contra o extremismo?

- Nas respostas ao terrorismo internacional, qual o balanceamento ideal dos Estados democráticos entre o hard power e o soft power?

- Que parcela das liberdades civis fundamentais (liberdade de expressão, de religião, de movimento, de reunião, habeas corpus, entre tantas outras) estará o mundo democrático disposto a alienar em nome da defesa contra a ameaça terrorista?

Sem esquecer que se sacrificarmos as nossas liberdades básicas em nome da ameaça terrorista, teremos feito, nós próprios, o trabalho dos terroristas.

Dá que pensar…

Eurico Rodrigues
Mestre em Estratégia
Membro Fundador do Clube de Reflexão Política a Linha

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

JOÃO CARVALHO - UMA PEQUENA HISTÓRIA AFRICANA


No início da minha vida profissional, tive a grata experiência de homem do mar, que marcou de forma vincada, a minha própria personalidade.

Foi no final dos anos 60, que embarquei pela 1º vez, como praticante de oficial Marinha Mercante, no paquete "Vera Cruz" que, na altura, se dedicava ao transporte de tropas para Angola.

Na chegada a Luanda, que para mim representava a primeira vez que ia pisar terra africana, levava os sentidos alerta e a curiosidade desperta para essa nova experiência.

Depois do desembarque das forças militares e ao descer a escada do portaló, chamou-me a atenção um vendedor de artesanato que carregado de colares e bugigangas, se me dirigia, subindo a escada com toda a sua "mercadoria".

De repente, surge do nada, um indivíduo civil que mais tarde soube ser um polícia de defesa do Estado, que esbofeteia o pobre vendedor e o leva a cair na escada e a espalhar as estatuetas no chão do cais.

Protestei, naturalmente, contra um procedimento tão desajustado, mas percebi nesse primeiro contacto, que não tinha chegado a uma terra de Comércio Livre ...

Sei que passados quase 40 anos, muito mudou no mundo, em África e em Angola. Sei e vivi muitas outras histórias de sinal contrário do ponto de vista étnico e social, mas que igualmente mostram um grande desrespeito pela diferença.

Esta foi, no entanto, uma história que nunca mais esqueci e de que me recordo sempre que, como gestor, tenha que negociar com outras gentes, de outras raças, de outros credos e de outros hábitos.

Por respeito pela diferença.

João Carvalho
Presidente da Associação de Armadores da Marinha de Comércio
Membro Fundador do Clube de Reflexão Política a Linha

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Artigo de Opinião: A Administração Local e a busca de novos desígnios – Autárquicas 2009

A busca de novos desígnios na Administração Local, com vista a fazer face aos desafios da actual conjuntura, exige dos autarcas e dos candidatos a autarcas cada vez maior conhecimento no que concerne ao território que se propõe administrar, mas também maior criatividade na apresentação de soluções alternativas que poderão representar verdadeiros sucessos. Não se pode, todavia, descurar a obrigatoriedade desta criatividade ser limitada pela responsabilidade e respeito pelo dinheiro confiado pelos contribuintes ao Estado.
Esta criatividade deverá restringir-se, deste modo, aos métodos gestionários e não a novas formas de “cimentar” a figura do Presidente da Câmara ou da Junta por via de novas “rotundas” que não resolvem quaisquer problemas de tráfego, ou de “Pavilhões Polidesportivos” cujos índices de utilização não justificam o investimento realizado.
Deste modo, considero pertinente que se avance com sinergias inter-municipais para desenvolver planos de desenvolvimento estratégicos de zonas comuns ou de interesse comum a diversos municípios. Nesta óptica, municípios de baixa densidade populacional por Km2, como a maioria dos que se situam na faixa Bragança – Castro Marim, deverão definir orientações estratégicas com vista à optimização dos recursos.
É aqui que nos confrontamos com a necessidade de novas políticas públicas de âmbito local. Coloca-se, deste modo, forçosamente, a questão da necessidade de avaliar aquelas que estão neste momento já implementadas ou em fase de implementação, para que as novas políticas não venham a ser apenas mais uma camada por cima de todas as outras que se foram acumulando no terreno.
A avaliação das políticas é fundamental para que se evitem erros de implementação que foram sucessivamente cometidos, apenas porque nunca se desenhou a nova política tendo por base o sucesso ou o insucesso da anterior. Se para as políticas anteriormente implementadas os estudos estratégicos de viabilidade e sustentabilidade foram descurados, para as que agora pretendemos implementar, com vista a imprimir uma nova dinâmica nas autarquias locais, deverá seguir-se o ciclo de avaliação ex-ante, monitorização, e avaliação ex-post. É certo que os ímpetos edificadores de muitos autarcas serão travados por este processo que, todavia, terá o mérito de filtrar os projectos de políticas que realmente interessam ao cidadão.
Tomo como exemplo a nova lei da limitação de mandatos dos presidentes das câmaras municipais e das juntas de freguesia e não, como vulgarmente se designa, dos eleitos locais. Efectivamente, um executivo municipal inalterado há mais de três mandatos ver-se-á, a partir de 2009, sem a sua figura de proa, o que não significa, necessariamente, que haverá uma renovação de fundo nos órgãos executivos de gestão das autarquias (como estabelece a lei 46/2005). Esta lei, em minha opinião crucial, apenas peca por não se estender aos restantes membros eleitos que tenham exercido funções executivas. Está, pois, em causa a prossecução de uma verdadeira reforma na eleição dos executivos autárquicos.
Este espírito criativo e reformador das políticas públicas locais, apenas sairá vencedor se for dado o necessário relevo ao papel da avaliação das políticas públicas já implementadas ou em fase de implementação. Só assim seremos verdadeiramente inovadores e criativos. Só assim desenharemos políticas de sucesso.
Rui Estêvão Alexandre
Politólogo
Membro Fundador do Clube de Reflexão Política a Linha

sábado, 22 de novembro de 2008

João Martins Pereira (1932-2008). A 'nova esquerda' portuguesa na década de 70.

A entrada na vida faz-se de muitas maneiras. Para alguns, inclui o encontro com pessoas excepcionais à distância de quase uma geração. Gente que nos ajuda a pensar, mesmo quando, do alto dos nossos inquietos 20 anos, já tudo resolvemos com a deslumbrada certeza dos muito ignorantes.
Certo é que, naqueles anos extraordinários do imediato pós-25 de Abril, algumas experiências de genuína liberdade nos permitiram escolher o caminho, indiscutivelmente difícil, de combate a todos os dogmas, desde logo aqueles em que inicialmente nos formámos.
João Martins Pereira, cuja morte o Público anunciava na sua edição do passado sábado, é assim lembrado pelo autor do blogue Eterno retorno, o médico Paulo Calhau:

Fiquei triste com a notícia da morte de João Martins Pereira.Em 1976, na ressaca do PREC, foi na Gazeta da Semana que descobri algo de muito importante - uma outra forma de pensar a Esquerda. Uma Esquerda não estalinista. Uma Esquerda não maoista. Não à esquerda da Esquerda. Mas à esquerda da Social Democracia.(sic) Uma Esquerda libertária, inquieta, reflexiva, corajosa. Uma Esquerda utópica (?). O desaparecimento do semanário representou uma grande perda. Que então lamentei. E que hoje recordo. Como eu gostava de ter conservado toda a colecção de jornais - que comprava e lia com avidez - para agora recordar a lucidez, serena e inteligente, de João Martins Pereira.
Até sempre, Engenheiro!


Outras facetas da biografia de João Martins Pereira, com quem me cruzei entre 1976 e 1980, são detalhadas no obituário de José Vítor Malheiros[i]. Como, por exemplo, a sua participação, na qualidade de Secretário de Estado da Indústria e Energia, no IV governo provisório, após o 11 de Março, pela mão de João Cravinho, seu amigo e, então, Ministro da Indústria:

"O João Martins Pereira nunca tinha querido estar na acção política directa, assumir cargos políticos", conta João Cravinho, "Mas quando o fui convidar nessa altura, ele achou que não era possível dizer que não. Tinha a noção de que se tratava de um momento-chave. Lembro-me que me disse algo do género 'Isto agora é que é. Ou pegamos nisto e levamos isto para a frente ou isto perde-se'."

Autor de algumas obras de leitura obrigatória para quem queira conhecer o Portugal do período da transição para a democracia -- Pensar Portugal, Hoje, 1971; Indústria, Ideologia e Quotidiano, 1974; O socialismo, a transição e o caso português, 1976 – Martins Pereira aliava a um profundo conhecimento das questões que se prendiam com o desenvolvimento industrial e o sistema económico a radicalidade de uma análise da sociedade que não ignorava a centralidade da acção política, apesar do testemunho atrás transcrito. E deixa-nos sobretudo, mesmo àqueles que o conheceram pouco e mal, uma tentativa original, e quase solitária, de pensar a esquerda, fora de qualquer alinhamento, é certo, mas em diálogo crítico intenso com o seu tempo.


João Santos

[i] http://static.publico.clix.pt/docs/opiniao/JoaoMartinsPereira/

João Martins Pereira: A Esquerda – Critério e Atitude. (um excerto)

Se a Esquerda é projecto, ela tem de constituir um sistema de ideias, que só o será se existir um critério (ou critérios) que o estruture(m). As ideias poderão ir evoluindo – pois não só o debate não tem fim, como ir-se-á modificando o contexto em que ele decorre -, mas aquilo que as liga e interrelaciona, que as estrutura enquanto projecto, terá de manter--se constante. […] Para não me alongar demasiado, exemplifico: o critério de emancipação ou de «libertação», se preferirem. Ao pronunciar-se sobre tudo - e a Esquerda tem de pronunciar-se sobre tudo - parece aceitável que o conceito de emancipação deverá ser um elo de ligação permanente entre todas as ideias do sistema. o que já não é indiscutível é o próprio conceito de emancipação, que ele-próprio para ser «operacional», merecerá discussão, elaboração, «aperfeiçoamento». Em termosideais, dir-se-á que é emancipador tudo o que aproxime um indivíduo do ser plenamente responsável que «teoricamente» é. Será pois emancipador tudo o que tenda a reduzir os constrangimentos sociais, económicos e culturais que limitam a liberdade de escolha ou decisão do "indivíduo em sociedade". Cito apenas um caso comezinho: a Educação é geralmente considerada como um factor de emancipação. Mas que Educação? Um sistema educativo concebido por forças conseryadoras será tendencialmente conformista e visará manter intactos os constrangimentos sociais pré-existentes - embora seja sempre um risco, e os fascismos bem o sabem, agindo em consequência. Para a Esquerda, pelo contrário, a Educação só será emancipadora se alargar os horizontes intelectuais dos educandos, se lhes despertar a imaginação e os sentidos, se for capaz de os interessar na mais apaixonante das aventuras - a da responsabilidade, individual e colectiva, a da vida que se recomeça a cada instante. Daqui decorrerá a ideia de Educação, para a Esquerda. Pensarão alguns que o Socialismo faz parte da ideia de Esquerda. É errado, a meu ver. Terá sido certo enquanto não houve «socialismos reais»; - o socialismo era então apenas uma ideia, um projecto. Hoje não é assim. Tantos são os regimes que a si mesmos se rotulam de "socialistas», que a Esquerda não pode ignorar essas experiências, submetendo-as ao critério da emancipação. O seu conceito de socialismo incorporará necessariamente os resultados desse exame
crítico, mas não coincidirá porventura com nenhum dos «modelos» já experimentados. Fará, conjuntamente com muitos outros elementos, todos, positiva ou negativamente inter-implicados, parte do projecto que é a Esquerda, não da ideia de Esquerda. Como me não proponho apresentar nenhuma teoria, nem esgotar os temas, mas apenas sugerir pistas, passo a outra delicada questão: a relação entre a ideia de Esquerda e os homens de Esquerda. Já vimos que são os homens que produzem as ideias, não a partir do zero, mas por "confrontação" entre as ideias pré-existentes (produzidas por anteriores gerações) e a sua própria experiência, no mais lato sentido. A ideia de Esquerda, como todas as outras, está assim em permanente construção. Recordo aqui, a propósito, uma interessante distinção assinalada por A. J. Saraiva, há muitos anos, num artigo de jornal sobre a tradução portuguesa do francês ««engagement». Propunha ele uma dupla tradução, correspondente ao duplo sentido da palavra original: por um lado, alistamento, por outro, empenhamento. Alistamento corresponderia ao «engagement» numa tropa, numa organização, num partido. Pressupõe uma adesão a regras pré-estabelecidas, uma atitude dominantemente passiva, «irresponsável». Ao contrário, o empenhamento é uma auto-mobilização de natureza emotivo-intelectual, uma atitude activa em que assumimos perante nós e perante os outros uma total responsabilidade, o risco de não termos quem nos "cubra" em juízos, afirmações, decisões, actos em que nos jogamos por inteiro. É evidente que' se aceitarmos os postulados feitos quanto à ideia-ideal de Esquerda, os homens de Esquerda deveriam ser homens empenhados, não alistados. Talvez melhor, para manter os pés na terra, homens empenhados mesmo quando alistados. A desconfiança endémica dos políticos em relação aos intelectuais que aderiram aos respectivos partidos, muito em particular na área da «esquerda» por razões óbvias, deriva justamente de os saberem militantes não-como-os-outros. De facto, se se assumirem como intelectuais (adiante voltaremos a este ponto), eles serão militantes incómodos' que parecem estar sempre a pôr em causa o que os dirigentes consideram mais do que «adquirido», que colocam questões que nada têm a ver com as próximas eleições ou com o acesso deste ou daquele aos centros do Poder (no partido e fora dele), enfim, que «desestabilizam» o aparelho. Mas atenção: falámos de empenhamento de natureza emotivo-intelectual. Isto é, homens de esquerda não são exclusiva nem predominantemente, os chamados «intelectuais». Num texto que em tempos publiquei, a propósito dos militantes e da militância, tive ocasião de distinguir ao nível das lutas e iniciativas concretas que se multiplicaram em 74-15 por todo o país, os militantes «alistados» dos «empenhados», sem assim os designar na altura. Os militantes empenhados eram os activistas locais que, partindo de necessidades colectivas do seu «pequeno mundo», se mobilizavam e mobilizavam os outros para lhes dar resposta, jogando nisso afectividade, energia e inteligência, índependentemenle de quaisquer orientações partidárias. Aí estava a Esquerda, e é aí que também continuará a estar. Outro exemplo: a revolta do mais ignorante e carecido contra situações concretas de injustiça pode ser vivida na passividade e na impotência' mas também pode dar lugar a um alistamento, se se decide transferir para uma organização a gestão dessa revolta, ou a um empenhamento, se se assume a responsabilidade de uma acção colectiva *exemplar" para fazer frente a tais situações.

Extraído de «Sobre a Esquerda: 1 – A ideia e os intelectuais», No Reino dos Falsos Avestruzes. Um olhar sobre a política, A Regra do Jogo, 1983.

Foto: Público.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Artigo de Opinião: A Política e as Pessoas

O que é a Política?

Sem qualquer dúvida, existem muitas perspectivas e olhares sobre esta questão…

Como Clube de Política que somos este tema remete às nossas origens, à nossa identidade.

Uma busca na Wikipedia apresenta-nos a seguinte definição “No uso trivial, vago e às vezes um tanto pejorativo, política, como substantivo ou adjectivo, compreende as acções, comportamentos, intuitos, manobras, entendimentos e desentendimentos dos homens (os políticos) para conquistar o poder, ou uma parcela dele, ou um lugar nele: eleições, campanhas eleitorais, comícios, lutas de partidos etc.”.

Esta óptica remete a política necessariamente para os Partidos Políticos, locais de discussão e decisão política… onde os entendimentos e desentendimentos humanos remetem para um padrão de comportamentos e de atitudes que reflectem normas sociais próprias e específicas a este grupo social.

Como todos os grupos sociais, também os partidos políticos possuem especificidades que promovem a sua coesão grupal, como a gíria comunicacional, os processos de liderança e os métodos de resolução de conflitos… e regras de conduta que têm como objectivo facilitar a dialéctica interna e simultaneamente garantir a sua unidade e isolamento do exterior.

Estes processos conduzem a que actualmente, na minha opinião, uma das questões centrais seja a Relação entre a Política e as Pessoas.

Muitos já reflectiram comigo sobre os Políticos. Porque esses cidadãos não compreendem as regras de conduta do tal Grupo Social dos Políticos, e o desconhecido provoca de forma primária um sentimento defensivo de repulsa. No entanto, as Pessoas sentem que as decisões dos Políticos influenciam directamente as suas vidas, o seu bem-estar, a sua felicidade… pelo que se questionam… os Políticos são Pessoas?

Logo de seguida surge um distinção de conceitos, entre os Políticos, e a sua obra, as Políticas. O distanciamento que os cidadãos percepcionam induzem necessariamente a outra questão… as Políticas são a consequência dos “ entendimentos e desentendimentos” do Grupo Social, ou são as medidas que reflectem a estratégia de promoção do bem-estar das Pessoas?

Este desentendimento sobre as medidas políticas alimenta um sentimento que fundamenta uma atitude nas Pessoas de hostilidade perante os Políticos, considerando que eles são um grupo fechado, centrado nas suas preocupações e nas suas metas individuais.

A atitude de hostilidade, que em muitos cidadãos se exterioriza numa atitude de passividade e de amorfismo na participação política, alimenta um sentimento de indiferença nos Políticos perante as Pessoas (rompido de forma cíclica em períodos eleitorais), considerando que elas não querem participar na promoção do seu próprio bem-estar, justificando a percepção de isolamento do Grupo Social pelo afastamento a que as Pessoas se remetem.

Considero que o objectivo de um Clube de Política em geral e do Clube de Política A Linha em particular, é de promover uma aproximação gramatical entre os Políticos e as Pessoas. Queremos que a sua relação não ocorra na 3ª pessoa do plural “eles”, mas fruto do reflexo da sua imagem num espelho, ou seja, na 1ª pessoa do singular “eu”.

Queremos, assim, juntar Políticos e Pessoas, não em termos de espaço físico, mas em termos de identidade!

Os Políticos somos nós Pessoas, que gostamos de Política, que por esta razão nos identificamos como Políticos, na prossecução do Bem-Estar de todos nós Pessoas.

Rui Ângelo
Psicólogo
Membro Fundador do Clube de Reflexão Política a Linha

sábado, 8 de novembro de 2008

Para Obama

...
O lugar onde se ergue uma grande cidade não é simplesmente o lugar de
longos cais, docas, manufacturas, armazéns,
Nem o lugar onde, sem cessar, se saúdam os recém-chegados ou os que
levantam a âncora da partida,
Nem o lugar dos edifícios altos e sumptuosos ou das lojas que vendem
mercadorias vindas do resto da terra,
Nem o lugar das melhores bibliotecas e escolas, nem o lugar onde
existe mais dinheiro,
Nem o lugar da população mais numerosa.

Onde se ergue a cidade com a estirpe mais vigorosa de oradores e bardos,
Onde se ergue a cidade que é amada por estes, e em troca os ama e os
compreende,
Onde não existem monumentos a heróis a não ser nas palavras e nos
actos do dia-a-dia,
Onde a economia está no seu lugar, e a prudência está no seu lugar,
Onde os homens e as mulheres pouco pensam nas leis,
Onde o escravo deixa de existir, e o dono dos escravos deixa de existir,
Onde a gente comum se levanta prontamente contra a eterna ambição dos eleitos,
Onde os homens e mulheres destemidos se precipitam como o mar que, com o
silvo da morte, lança as suas ondas impetuosas e terríveis,
Onde a autoridade exterior entra sempre precedida da autoridade interior,
Onde o cidadão está sempre à frente e é o ideal, e o Presidente, o Mayor,
o Governador e os restantes são agentes pagos,
Onde as crianças são ensinadas a ter as suas próprias leis, e a depender de si
mesmas,
Onde a rectidão se reflecte nos negócios,
Onde as especulações sobre a alma são encorajadas,
Onde as mulheres caminham com os homens em procissões públicas
pelas ruas,
Onde elas entram nas assembleias públicas e tomam os seus lugares como os homens,
Onde se ergue a cidade dos mais fiéis amigos,
Onde se ergue a cidade da pureza dos sexos,
Onde se ergue a cidade dos pais mais saudáveis,
Onde se ergue a cidade das mães mais fortes,
Aí se ergue a grande cidade.


Walt Whitman (1819-1892), excerto de ‘Canção do Machado’, in Folhas de Erva, Relógio d’ Água, trad. Mª de Lourdes Guimarães (adaptada)

Foto: www.independent.co.uk/multimedia/archive



(ed.: João Santos, A Linha)

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Mensagem de Carlos Leone




"A linha como caminho político directo entre o pensamento e a acção"





Artigo de Opinião: Obama e a Europa

O mundo quase parou. Apesar de as projecções darem alguma segurança (7,5% de diferença) na vitória do candidato democrata, o suspense era legítimo. Afinal, o sistema eleitoral americano, com todas as suas especificidades, já nos deu provas de que nem sempre a maioria do voto popular representa a vitória do candidato.

A Europa que historicamente se habituara a ter os olhos do mundo virados para si, estava ontem de olhos postos nos EUA. A Europa, a Ásia, África, enfim, o mundo ansiava pela mudança de paradigma político na administração americana e queria vê-lo surgir em primeira mão. Obama comparou o momento da sua eleição à chegada do homem à lua e à queda do muro de Berlim. Efectivamente a comparação poderá parecer exagerada, porém deixa transparecer a força e a vontade de levar a efeito alterações tão substanciais quanto foram as provocadas por estes acontecimentos.

A Europa, quase que fazendo um mea culpa, queria ver Obama na Casa Branca. Mesmo que isso não represente, e não representará de todo, que o novo presidente dos EUA porá os interesses europeus num patamar de maior relevância do que Bush os havia colocado. Na verdade o presidente americano terá sempre como core da sua actuação os problemas dos americanos. A influência que poderá sentir-se na Europa terá que ver necessariamente com o cruzamento de interesses estratégicos entre as duas potências.

Todavia, nesta nova era política e económica, o facto de haver uma maior identificação política entre os actuais líderes europeus e a administração americana, facilitará decerto a relação euro-atlântica. Necessário é que os Estados europeus não sintam esta eleição tão sua que esperem (sentados) que as soluções para a estagnação da economia venham apenas dos EUA.

Rui Estêvão Alexandre
Politólogo
Membro Fundador do Clube de Reflexão Política a Linha

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Mensagem de Augusto Santos Silva




"A linha justa é a circunferência sem centro"









sábado, 1 de novembro de 2008

Clube a Linha debate Socialismo no Século XXI

Augusto Santos Silva e Carlos Leone foram os oradores do Colóquio promovido pelo Clube de Reflexão Política "A Linha" no dia 30 de Outubro no Hotel Baía, em Cascais, sobre o tema "Socialismo no Século XXI: correntes em análise".

Correspondendo ao repto lançado pelo moderador desta iniciativa, João Santos, os dois professores universitários propuseram a uma sala cheia de um público interessado uma reflexão centrada na pluralidade de leituras acerca dos socialismos e das vias para a sua realização no tempo histórico que se avizinha.

Augusto Santos Silva, explicitando que intervinha não na qualidade de ministro mas de quem sempre exercita a sua liberdade de pensamento como parte dos compromissos e ligações que mantém na acção política, começou por fazer uma análise da evolução do pensamento socialista desde o século XIX para acentuar a sua plena actualidade e as potencialidades futuras. Referiu sete aspectos que considerou constituírem contributos incontornáveis do socialismo democrático no Século XX.

Em primeiro lugar, uma absoluta radicalidade na defesa da democracia enquanto valor essencial que não deve ser sujeito a classificações valorativas tendentes a condicionar a sua centralidade em qualquer projecto de natureza socialista.

Também, em segundo lugar, toda a evolução teórica e prática resultante da entrada da social-democracia para o governo da Suécia em 1917.

Em terceiro lugar, o facto de que ser progressista hoje significa pugnar pela redução ao mínimo da normatividade condicionadora da vida individual dos cidadãos.

Em quarto lugar a "intransigência" na defesa do papel estratégico do Estado, enquanto garante do interesse comum, numa reactualização política que não pode fazer-se apenas com o incremento das funções de regulação desse Estado.

O compromisso constante com a inovação em múltiplos domínios (científico, económico, tecnológico, educativo, social, etc) numa perspectiva de garantida difusão dessa inovação a todos, constitui o quinto traço do pensamento socialista afirmado no Século XX.

O sexto contributo decorre da necessidade de uma aposta constante nos domínio que efectivamente promovem a mudança nomeadamente no sentido de um Estado capacitador dos cidadãos isto é, numa dinâmica social que vá para além do propiciar de igualdade de oportunidades. Daqui decorre a necessidade de que as políticas sociais combinem a universalidade com a equidade por forma que a integração entre classes médias e populares seja dinamizada com acções de protecção e de diferenciação positiva.

O sétimo aspecto constitutivo do pensamento socialista emergente do século XX é a grande exigência com o serviço público por forma a que este se paute por elevados padrões de qualidade.

Complementarmente a estes sete aspectos, que considerou serem as mais importantes aquisições do socialismo no Século que passou, referiu também cinco traços que lhe parecem poder constituir escolhos na afirmação do socialismo no Século XXI.

Desde logo o conservadorismo enquanto medo ao risco e à incerteza que são próprios de qualquer processo de mudança. Este, referiu, ser um dos factores que condiciona parte do pensamento da esquerda.

A ambiguidade constitui um segundo elemento que deve ser evitado. A clareza de posições e a frontalidade no diálogo são aspectos indispensáveis à afirmação do(s) socialismo(s)

A retórica enquanto expressão de um discurso meramente proclamatório é um traço prejudicial que repetidas vezes se consubstancia na crítica às dificuldades e às limitações sem apresentação de qualquer alternativa ou contribuição para a superação dos problemas e para a evolução social.

O quarto aspecto que as correntes socialistas devem, em seu entender, evitar é a deriva paternalista em que quaisquer uns se considerem detentores da verdade absoluta, quiçá ungidos de qualidades messiânicas.

Finalmente, a incompreensão de que o socialismo só é alcançável numa dimensão europeia constitui um quinto escolho que importa ultrapassar.

Por seu turno Carlos Leone, professor convidado da Universidade Nova, abordou diversos aspectos relacionados com a dimensão ética da política e com o primado da liberdade no projecto socialista.

Referiu o contributo do pensamento de Mário Sottomayor Cardia para a conceptualização do socialismo no Século XXI e questionou a ambiguidade das posições de quem proclama o somatório de esquerdas sem a prévia clarificação de propósitos e projectos.

Fez uma crítica do que afirmou ser o socialismo dogmático, prisioneiro de preconceitos e soluções anquilosadas, assim como do socialismo distópico, isto é daquele que nada propõe para além da fraseologia vazia descarnada de qualquer projecto consistente.

As intervenções apresentadas proporcionaram um debate aberto que se prolongou animadamente durante algumas horas.

O Clube de Política "a Linha" propõe-se prosseguir com iniciativas diversas de reflexão e de diálogo por forma a alargar o espaço de participação e de cidadania para todos quantos ambicionam a construção de um futuro de maior justiça e liberdade.

www.clube-a-linha.blogspot.com